No dia 24 de março, exatamente uma semana após o primeiro registro de morte por Covid-19 no Brasil, o presidente da República, Jair Bolsonaro, decidiu que era necessário fazer um pronunciamento para a população sobre o assunto. Há época, 2.201 pessoas haviam testado positivo para o novo Coronavírus no país, contabilizando 47 mortes. Na ocasião, o presidente disse que a vida tinha que continuar e “devemos, sim, voltar à normalidade”. Hoje, 07 de maio, Bolsonaro se reuniu com Dias Toffoli, Paulo Guedes e um grupo de empresários para pedir a flexibilização das medidas de isolamento, afirmando que existem coisas até mais importantes que a vida, como a liberdade.
Entre uma fala e outra muitas coisas mudaram. 122.799 novos casos foram registrados, com mais 8.541 mortes contabilizadas, o Ministro da Saúde foi exonerado, o Ministro da Justiça e Segurança Pública pediu demissão, o caos político foi instaurado e a pandemia conseguiu ficar em segundo plano por alguns dias. Somente uma coisa não mudou: a retórica dicotômica entre economia e saúde.
O presidente insiste no argumento de que para manter os empregos e salvar a economia é necessário acabar com as medidas restritivas, o que levaria a uma proliferação exponencial do vírus no país. Mas será que esse é a melhor maneira para minimizar os efeitos da crise econômica pós-pandemia?
Fazendo uma comparação com o Paraguai, país que levou a sério as diretrizes da Organização Mundial da Saúde e manteve a unidade entre governo, órgãos federais de saúde e de economia, vemos o abismo em que nós estamos. No mesmo dia do pronunciamento de Bolsonaro, o Paraguai registrava 37 casos de Covid-19 (5,28 a cada milhão de habitantes). Hoje, com a proliferação em curva descendente, o país possui 440 pessoas infectadas (62,86 a cada milhão de habitantes).
Chegamos à conclusão que o número de casos no Paraguai aumentou 12 vezes em 44 dias. No Brasil, o número de casos aumentou, aproximadamente, 57 vezes no mesmo período. Além disso, a curva de crescimento está em franca ascendência, com o país registrando recorde de mortes e infectados a cada dia.
No dia 5 de maio, o governo paraguaio iniciou, gradativamente, a retomada das atividades econômicas no país. É aqui onde a dicotomia economia-saúde cai por terra.
Por ser firme no combate ao Coronavírus e reforçar a importância do isolamento social, o governo paraguaio conseguirá, provavelmente, retomar as atividades econômicas muito mais rápido que o Brasil. Consequentemente, a crise econômica provocada pela pandemia terá um efeito menor e menos duradouro, além de não haver perda significativa na força produtiva devido às mortes causadas pelo vírus. O que não podemos afirmar sobre a situação econômica do Brasil, onde ainda estamos lutando para achatar a curva.
O Governo Federal teve quase dois meses para se preparar e agir rapidamente no combate ao coronavírus, tempo suficiente para pensar nas melhores opções para solucionar a inevitável crise econômica que viria. Não agiu. Não pensou. Agora o que vemos é a explosão de casos e mortes, falta de leitos, falta de testes, empresas fechando, pessoas se aglomerando para tentar receber 600 reais, profunda crise política e nenhuma luz sobre quando as coisas irão melhorar. E o pior, gente minimizando a doença. E pior ainda, o Presidente da República está entre essas pessoas.
